No mercado de prevenção contra incêndio, é comum encontrarmos soluções “criativas”, e até muito bem intencionadas, para contornar desafios de instalação. Uma das mais persistentes é o uso do chamado coletor de calor (ou chapéu de calor).
É uma solução que vez por outra vem à tona quando o bico de sprinkler está posicionado fora dos limites de distância do teto, recomendados. Esse dispositivo promete acelerar o acionamento do bulbo, mas veremos que o efeito é o oposto.
Mas a pergunta que não quer calar entre os profissionais do segmento é: seu uso é permitido por norma? A resposta é curta e objetiva: Não.
Entenda agora a história, os fundamentos técnicos e normativos por trás dessa proibição. Boa leitura!
Em 2002, a U.S. Nuclear Regulatory Commission (NRC) publicou o Information Notice 2002-24 para alertar operadores industriais e nucleares sobre potenciais problemas associados ao uso de heat collectors (coletores de calor) instalados em sprinklers automáticos e detectores térmicos. O documento não impunha novos requisitos regulatórios, mas recomendava a avaliação crítica dessas soluções em sistemas existentes, pois após inspeções foram identificadas dúvidas quanto ao desempenho de dispositivos que tentam acelerar artificialmente a ativação térmica dos sprinklers.

Carta de recomendação da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA (NRC) – 2002.
O funcionamento adequado de um sprinkler depende da dinâmica natural do incêndio. O calor convectivo ascende até o teto, formando o ceiling jet (jato térmico de teto), responsável por conduzir gases quentes horizontalmente até os sprinklers mais próximos do foco. Quando instalados corretamente junto ao teto, os sprinklers permanecem imersos na camada superior aquecida, garantindo tempo de resposta compatível com os ensaios de certificação e permitindo o desenvolvimento correto do padrão de descarga de água.
A utilização de coletores de calor surgiu historicamente como tentativa de compensar instalações abaixo do teto, porém essa prática contraria os princípios físicos que governam a ativação térmica dos sistemas automáticos, como veremos mais à frente.
O documento da NRC nos informa que no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, parte dos projetistas de sistemas de sprinklers e engenheiros de proteção contra incêndio passou a defender a instalação de sprinklers em níveis mais baixos que o teto, desde que fossem utilizados coletores de calor acima dos equipamentos para auxiliar sua ativação durante um incêndio. A justificativa técnica era que o calor da pluma poderia provocar evaporação precoce das gotas de água antes que elas penetrassem adequadamente no incêndio, além de que grandes distâncias entre o sprinkler e os materiais combustíveis poderiam dificultar a aplicação da densidade de água necessária ao controle do fogo. Assim, os coletores foram adotados como tentativa de aproximar os sprinklers da carga combustível localizada ao nível do piso.

Exemplos de Coletores de calor aplicados em casos reais.
Paralelamente, outros profissionais argumentavam que a elevada quantidade de interferências no teto (obstruções) — como bandejas de cabos, tubulações, dutos e conduítes — dificultava a instalação ideal dos sprinklers junto à cobertura.

Exemplos de sprinkler instalado com distância excessiva do teto.
Como alternativa, passaram a posicionar os equipamentos abaixo dessas obstruções, acreditando que essa configuração permitiria o desenvolvimento adequado do padrão de descarga, mesmo fora da posição tradicional de ativação, próxima ao teto.
A análise normativa realizada pela NRC demonstrou que a NFPA 13 nunca reconheceu formalmente o uso de heat collectors (coletores de calor) como alternativa válida ao posicionamento adequado dos sprinklers. Nas versões históricas da norma, dispositivos semelhantes eram classificados como baffles (defletores) ou shields (escudos), cuja função é proteger o sprinkler contra danos mecânicos ou evitar o fenômeno de cold soldering (“solda a frio” ou resfriamento prematuro por descarga de água). Esses componentes não têm a finalidade de acelerar a atuação térmica, muito pelo contrário, têm a função de proteger o sprinkler em níveis inferiores, da projeção de água provocada pela ativação de sprinklers em níveis superiores com consequente retardamento de ativação, reforçando o entendimento de que o desempenho do sistema, bem como a ativação do sprinkler, deve depender do comportamento natural da pluma térmica do incêndio.
Ainda segundo o documento, ensaios experimentais e inspeções de campo analisados pela NRC indicaram que os coletores de calor podem produzir efeitos opostos aos pretendidos. Certos formatos geram dead air space (zona de ar estagnado) abaixo do dispositivo, aumentando o tempo de resposta ou impedindo a ativação quando o incêndio não ocorre diretamente sob o sprinkler. Também foram observadas instalações capazes de interferir no padrão de descarga de água, reduzindo a eficiência do controle do incêndio.
Como conclusão, o aviso técnico destacou que sprinklers instalados afastados do teto e dependentes de coletores de calor apresentam desempenho não comprovado e podem comprometer a confiabilidade da proteção contra incêndio.
Há um estudo chines, o Analysis of the effectiveness of heat-collection plate (Análise da eficácia da placa de coleta de calor) que conclui resumidamente o seguinte:
Com base na primeira conclusão, onde identificou-se influência no tempo de resposta do sprinkler, é importante dizer que o sistema de proteção por sprinkler não é projetado para ativar o quanto antes possível, mas sim no tempo ideal, podendo haver impacto tanto no controle da evolução do incêndio (se a ativação do sprinkler for retardada) como também na sobrecarga no consumo de água, exaurindo a Reserva Técnica de Incêndio (RTI) em tempo menor do que o projetado (se o sprinkler abrir rápido demais e em quantidade maior que a calculada). Por isso existem diferentes tempos de respostas e aplicações distintas para cada um deles.
Leia também: Variações de bulbos nos sprinklers: temperaturas, tempos de resposta, exemplos de aplicação e curiosidades.
Diferente do que muitos pensam, essa não é uma restrição recente. Desde a versão de 2007 da ABNT NBR 10897, o uso de coletores de calor em instalações de chuveiros automáticos não é admitido.
Por curiosidade, verificamos o que dizia a versão anterior (de 1990) da Norma NBR10897, sobre os coletores de Calor. Veja:

Norma ABNT NBR 10897:1990, sobre o coletor de calor.
Contudo, ao que tudo indica, o dispositivo foi desconsiderado nas versões posteriores da Norma 2007, 2014 e 2020.
Assim como as normas internacionais, a norma brasileira é clara ao estabelecer as distâncias máximas e mínimas entre o defletor e o teto, bem como os critérios para tratamento de obstruções. O coletor de calor tenta “simular” um teto onde ele não existe, mas essa simulação não possui eficiência comprovada em ensaios laboratoriais controlados, como já vimos anteriormente.
Vale lembrar também que esta “solução” aparecia em versões antigas de Literaturas Técnicas de referência para o setor de Proteção Contra Incêndio brasileiro.

Coletor de calor proibido no Brasil desde a ABNT NBR10897:2007.
Portanto, instalar esse acessório é colocar todo o projeto em uma condição de não conformidade normativa e reprovação em vistorias do Corpo de Bombeiros.
Para reforçar a segurança global, a norma americana NFPA 13, referência mundial que baliza os maiores fabricantes e seguradoras do planeta, também não ampara o uso do coletor de calor. Veja o que ela diz já em seu Hand Book na versão de 2019:
Tradução Livre:
9.5.4.1.4* Os coletores de calor não devem ser usados como meio para auxiliar a ativação de um sprinkler.
A.9.5.4.1.4 Devem ser seguidas as regras que descrevem a distância máxima permitida para sprinklers abaixo do forro. O conceito de colocar um pequeno “coletor de calor” acima de um sprinkler para auxiliar na ativação não é apropriado, nem está contemplado nesta norma. Há evidências de que objetos acima de um sprinkler podem atrasar sua ativação em incêndios que não estejam diretamente abaixo dele (mas ainda dentro de sua área de cobertura). Um dos objetivos da norma é resfriar o teto próximo aos elementos estruturais com a água pulverizada por um sprinkler próximo, o que não é alcançado por um sprinkler muito distante do teto, e um coletor de calor não ajudará nessa situação.
A FM Global estabelece critérios que indiretamente tornam certas soluções inviáveis, como os coletores de calor. Analisando os pontos-chave dos Property Loss Prevention Data Sheets é possível perceber que, quando lidos em conjunto, deixam clara a posição técnica da FM. De certa forma, através dos critérios existentes no Data Sheet 2-0 (Installation Guidelines for Automatic Sprinklers) podemos abstrair conceitos gerais que colidem frontalmente com a instalação de coletores de calor. Tais como:
Percebemos que estes também são conceitos técnicos presentes em outras Normas de referência e com isso é possível atestar a consonância entre as mesmas.
A tentativa de “ajudar” o sprinkler com um coletor de calor traz perigos invisíveis:
O sprinkler é projetado para “ler” a temperatura da camada de fumaça que se acumula no teto. Testes descritos na carta do NRC, detectaram que um coletor pode criar uma zona de ar estagnado que impede o calor de atingir o bulbo no tempo exato. Isso vale também para detectores de incêndio que atuam por princípio de detecção de temperatura.
No momento em que o sprinkler atua, o coletor de calor pode interferir fisicamente no jato de água, impedindo que o defletor distribua a água conforme o seu design original, inclusive impedindo que parte da água seja direcionada ao teto, como ocorre nos sprinklers do tipo spray, para resfriar tetos combustíveis e proteger partes estruturais.
O instalador acredita estar corrigindo um erro de altura de tubulação, quando na verdade está criando um ponto cego no sistema.
| Característica | O que diz o “senso comum”? | O que diz a Norma Técnica? |
| Permissão legal | “É um acessório comum e pode ser usado.” | Proibido. A NBR 10897 (desde 2007) e a NFPA 13 nunca admitiu o seu uso. |
| Acionamento | “Acelera o rompimento do bulbo ao concentrar calor.” | Imprevisível. Pode criar zonas de ar estagnado que atrasam o acionamento (thermal lag). |
| Distribuição de água | “Não interfere na água, pois está acima do bico.” | Obstrutivo. Pode deformar o padrão de descarga do defletor, criando pontos secos no incêndio, especialmente no teto. |
| Vistoria e seguro | “Os bombeiros não reparam nisso.” | Risco de Embargo. Pode causar a reprovação do AVCB e a perda da cobertura da seguradora. |
| Solução correta | “Instalar o coletor para compensar a altura.” | Ajuste de Engenharia. Reposicionar a tubulação ou usar sprinklers específicos conforme a NBR. |
Se o sprinkler está fora dos limites de distância do teto, a solução nunca será um acessório não homologado. A análise técnica correta exige:
A segurança contra incêndio não aceita “ajustes” que não tenham sido testados exaustivamente em laboratório. O coletor de calor é um dispositivo proibido que compromete a eficiência do sistema.
Ao projetar ou instalar, lembre-se: a qualidade da proteção está no cumprimento rigoroso das normas. Escolher sprinklers certificados e seguir as diretrizes da NBR 10897 é a única garantia de que o sistema funcionará quando cada segundo contar.
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